Ensino à distância

PANDEMIA ESCANCARA O QUANTO ENSINO À DISTÂNCIA É FALHO

Por: Da Redação | Categoria: Artigos | 25-05-2021 00:00 |
Entusiasmada com a possibilidade de substituir o ensino nas escolas, a ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos
Entusiasmada com a possibilidade de substituir o ensino nas escolas, a ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos Foto de Reprodução

Num longínquo mundo pré-pandêmico, quando máscaras eram apenas acessórios excêntricos de festas à fantasia e somente uma porção restrita de pessoas já tinha ouvido falar em um coronavírus, muito se discutia e apostava na implementação de uma série de mecanismos tecnológicos que dispensariam elementos até então considerados insubstituíveis nos processos de ensino, como salas de aula físicas, lousas e quem sabe até mesmo professores de carne e osso.

Esses recursos e ferramentas altamente informatizados (ou nem tanto) prometiam atualizar as nossas escolas e universidades a um mundo cada vez mais tecnológico e digital. Cadernos poderiam ser trocados por tablets e computadores, longas e tediosas aulas poderiam ser assistidas do conforto do lar (economizando recursos com a manutenção de espaços físicos) e cursos de idiomas poderiam ser substituídas por aplicativos, repetição de sons e inteligência artificial. Os promotores desses novos métodos anunciavam a chegada do futuro à educação – ou da educação ao futuro.

Em Ribeirão Preto (SP), nossos vizinhos foram com ainda mais sede ao pote do “futuro” e o prefeito reeleito Duarte Nogueira anunciou em 2017 o projeto “Professor Delivery”, também conhecido como “Uber da Educação”, por meio do qual professores sem vínculo com a Prefeitura poderiam ser convocados por celular com uma hora e meia de antecedência para darem aulas na rede municipal de ensino. Isso mesmo: sem preparo, conhecimento ou relação prévia com os alunos. Praticamente um episódio de Black Mirror, né?

Entusiasmada com a possibilidade de substituir o ensino nas escolas, a ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, encampou a defesa do homeschooling (ou educação doméstica), método por meio do qual os alunos são educados de dentro de casa pelos próprios pais, por professores particulares ou pela internet, e se comprometeu a lutar pela sua regulamentação no Brasil.

Então veio a pandemia. Milhões de crianças, adolescentes, estudantes universitários e professores foram obrigados a se isolar para evitar a contaminação por um vírus altamente transmissível e transferir suas dinâmicas de ensino para dentro de casa. Quartos, salas e escritórios viraram salas de aula, conectadas através de telas de computador. Na ausência física dos professores, mães e pais se tornaram responsáveis por ajudar os filhos nas lições e acompanhar as aulas, acrescentando essa tarefa às suas próprias rotinas de trabalho, sejam presenciais ou remotas.

Da noite para o dia, toda a promessa daquelas tecnologias supostamente milagrosas foi colocada à prova por milhões de pessoas de uma vez só. E o resultado não foi tão “futurístico” quando se esperava.

Distantes dos seus professores e colegas, assistindo palestras gravadas ou ao vivo, muitos estudantes passaram a enfrentar dificuldades ainda maiores para se concentrar nos estudos e interagir com as aulas. As taxas de abandono escolar dispararam. Desacostumados, professores e coordenadores pedagógicos tiveram que adaptar suas casas para oferecer aulas, dominar câmeras e microfones e inventar novas formas de absorver a atenção dos alunos, além de investir os próprios salários na compra dos novos equipamentos de trabalho (computadores e telefones modernos e cheios de memória interna) e extrapolar suas jornadas, pacotes de internet e faturas de celular atendendo pais e filhos até altas horas da noite.

Isso ainda sem falar do gritante déficit de acesso às tecnologias digitais no Brasil, país de dimensões continentais marcado por uma profunda desigualdade social. A internet de banda larga fixa, por exemplo, não é uma realidade para milhões de estudantes brasileiros, cujo direito à educação (garantido pela Constituição) passou a ser, na prática, negado durante as aulas remotas. Ao contrário do que muitos pensam, essa não é uma realidade distante, restrita a regiões distantes do país, mas de meninos e meninas que moram nos bairros e na zona rural da nossa cidade e não tem acesso à internet, aos materiais impressos das escolas e nem a um ambiente doméstico que permita acompanhar as aulas. Quem se responsabiliza pela formação desses jovens?

AIsso ainda sem falar do gritante déficit de acesso às tecnologias digitais no Brasil, país de dimensões continentais marcado por uma profunda desigualdade social. A internet de banda larga fixa, por exemplo, não é uma realidade para milhões de estudantes brasileiros, cujo direito à educação (garantido pela Constituição) passou a ser, na prática, negado durante as aulas remotas. Ao contrário do que muitos pensam, essa não é uma realidade distante, restrita a regiões distantes do país, mas de meninos e meninas que moram nos bairros e na zona rural da nossa cidade e não tem acesso à internet, aos materiais impressos das escolas e nem a um ambiente doméstico que permita acompanhar as aulas. Quem se responsabiliza pela formação desses jovens?

Guilherme Cortez, é estudante de direito.